Dicas

Pergunta: Posso colocar cordas de aço no violão de nylon e vice-versa?

Essa pergunta é uma das que mais ouço e para respondermos precisamos entender um pouco sobre o violão, a guitarra, ou seja, sobre o instrumento em si.

Imagine que ao invés de um violão temos um arco e flecha ou um berimbau. E que ele está totalmente solto e vamos dar voltas com um fio de aço em uma das pontas até atingir a nota Lá (440hz). No fim das voltas teremos no fio uma certa força que puxa a madeira do arco que chamaremos de tensão. Quanto maior essa força, maior a tensão. Agora vamos pegar outro arco e colocar um fio de nylon e dar voltas também até chegar na mesma nota. Quando comparamos os dois arcos veremos que eles não ficaram iguais. Isso prova que o material em si "estica" de forma diferente para alcançar a mesma nota.


Ampliando essa ideia para o violão: o braço do instrumento assim como o arco e flecha vai "envergar". No arco e flecha é bem visível, porém no violão pensamos que não mudou nada mas se olharmos direito veremos que mudou sim. E precisamos ter em mente que o violão é regulado para um tipo específico de corda. A madeira é escolhida e as peças todas são feitas pensando que ele deve obedecer uma certa regulagem para o som ficar limpo, para ficar afinado, para que as cordas não fiquem muito altas e tantas outras razões.

O que muda então ao trocar as cordas?

1) Trastejar: Se a corda trocada tiver uma tensão mais baixa, o arco e flecha ficará mais frouxo, ou seja, as cordas do violão mais perto do braço. Isso fará com que em alguns pontos do braço o som trasteje, isto é, a corda quando vibra encosta no braço fazendo um zumbido ao mesmo tempo que toca o som, ou às vezes corta o som da nota.

2) Cordas Altas: se a tensão da corda trocada for mais alta, o arco e flecha ficará mais apertado, ou seja, as cordas do violão mais distantes do braço. Isso puxará as peças do violão com mais força e pode tanto danificar a "ponte" que é a peça que fica colada no tampo do violão, como danificar as tarrachas deixando-as duras de apertar ( e com isso pode quebrar a parte que usamos para girar as cordas) e também no local em que prendemos a corda, ela é feita de aço por dentro e em alguns modelos de violão tem uma parte plástica por cima. Essa parte plástica pode se deslocar travando a corda na hora de trocar ( Eu disse trocar, não TOCAR. Para tocar o violão não atrapalhará em nada, mas na hora de trocar as cordas será preciso um alicate ou alguma ferramenta para soltar a corda presa). E por fim o lado ruim das cordas altas é que elas dificultam na hora de tocar e também machucam mais os dedos.

3) O som pode desafinar. Como a tensão do violão foi preparada para uma certa distância entre a ponte e a pestana e essa tensão está ajustada com os trastes (ferrinhos) do braço, quando você mudar este tamanho, ele vai desalinhar. Isso gera aquela sensação de que o braço está afinado no começo, mas chega na metade dele está desafinado e quanto mais você caminha com os acordes para frente pior fica. Esse nível de desafinação vai variar de acordo com a mudança de tensão. Se a tensão da corda antiga era muito alta e a corda nova muito baixa a desafinação será bem grande. Se a tensão antiga era média e a nova é um pouquinho mais alta talvez não se perceba muito. (Ps: Esse defeito pode ter outras causa também como por exemplo se o braço do instrumento estiver empenado, etc.)

4) O volume do som e o timbre vão mudar. Pode haver ganho ou perda de volume dependendo da troca. O violão é ajustado para dar mais volume com o seu encordoamento original. O timbre, apesar da mudança, pode ficar melhor ou pior, vai depender do gosto pessoal de cada um.

5) Por fim todo músico que é curioso já trocou as cordas do violão por outro tipo de corda mesmo com esses problemas todos citados acima. Já usei cordas de guitarra no violão inclusive (que fazem ele trastejar demais porém fica um som diferente). Tudo isso muda o som e todas as características do violão. No geral é bom ter um violãozinho extra para ficar inventando essas coisas para não correr risco de estragar o que mais usamos. Porém cada um assuma seus riscos e invente o que achar melhor. Às vezes um som "diferente" chama muito a atenção das pessoas e isso na vida do músico é sempre válido.

6) Quando você compra encordoamento algumas marcas avisam na embalagem a tensão da corda. Isso significa que mesmo uma corda de nylon pode ter diversas tensões (em geral Alta, Média e Baixa). Isso acontece por várias razões. Alguns músico usam afinações diferentes. Por exemplo, se o músico usa uma afinação mais baixa, então para que as cordas não fiquem frouxas, ele comprará um encordoamento com tensão alta. Outra razão também bastante comum para guitarristas é usar tensões mais altas para ter mais "sustein", ou seja, para que o som dure mais tempo ao permanecer parado em determinada nota. Sempre que mudamos a tensão devemos estar ciente que o instrumento precisa de uma nova regulagem que em geral é feita por um "luthier".

7) Fazendo outras experiências. Uma ideia possível para quem está com medo de estragar o próprio instrumento é a seguinte. Alias, só faça isso se você realmente já tem conhecimento de música e percepção sonora. Vamos lá, a ideia é a seguinte, se eu esticar demais a corda vou puxar com muita força as partes do violão e posso danificá-lo. Mas isso vale para a afinação padrão que se baseia no Lá (440hz). Porém posso afinar o instrumento em frequências mais baixas fazendo que a tensão não suba tanto. Isso pode ser um tom a menos. Ao invés de afinar com base no Lá, afinar com base no Sol. A afinação do violão ao invés de EADGBE (mi lá ré sol si mi) ficaria DGCFAD (ré sol dó fá lá ré). O lado bom é que você não danifica o instrumento. O lado ruim é que se você quiser acompanhar uma música gravada, a afinação da música permanecerá no tom original e você precisará transpor todas as notas em alguns casos ou usar um capotraste (aquele grampo que se usa muito em música folk) para adaptar a afinação para o braço normal. Ele pode ser colocado em qualquer casa do violão porém neste exemplo que citei baixando um tom ele ficará na casa 2. Porém não recomendo fazer isso se você não tem já uma noção bem avançada de música.

8) Afinal, trocar ou não trocar, eis a questão! Para terminar posso dizer que quando eu comecei a tocar violão e guitarra, já troquei nylon por aço e tudo mais sem ter grandes problemas. No geral naquela época não percebia estes problemas todos. Então o que realmente acredito é que para quem não toca profissionalmente e nem pretende tocar, essas trocas de tipo de corda talvez não atrapalhem muito, talvez nem sejam notadas. Quando por outro lado começamos a tocar profissionalmente, ficamos mais rigorosos com a qualidade do som, então neste caso não valeria a pena. Sendo assim, com todas estas informações fica bem simples entender os cuidados que devemos ter ao trocar as cordas e caso queiramos mesmo fazer o teste, ir com cautela. Acredito que quem tomar os cuidados aqui informados não terá problemas como "quebrar o violão" ao substituir os encordoamentos. A a maior parte dos problemas se concentrará no som mesmo e na desafinação que podem ser desprezíveis em grande parte das vezes.  Boa sorte!!

Assista esse videozinho desse cara que fez a experiência e contou o que aconteceu:


Abração

Beto